Da chegada dos portugueses à consolidação da democracia, a trajetória brasileira foi marcada pela expansão territorial, pela escravidão, por mudanças de regime, pelo desenvolvimento econômico e por uma persistente desigualdade social
Quando a frota comandada por Pedro Álvares Cabral chegou ao litoral sul da Bahia em 1500, o território já era ocupado havia milhares de anos por diferentes povos indígenas, com línguas, costumes e formas próprias de organização.
A chegada dos portugueses, tradicionalmente chamada de “descobrimento”, inaugurou o processo de colonização europeia. Nos cinco séculos seguintes, o país passou de colônia a império e, depois, a república. Expandiu suas fronteiras, aboliu a escravidão, industrializou-se e construiu uma das maiores economias do mundo. Ao mesmo tempo, atravessou golpes de Estado, períodos autoritários, crises econômicas e profundas desigualdades.
Principais acontecimentos históricos:
Antes de 1500 — Os povos originários
Muito antes da presença europeia, milhões de indígenas ocupavam o território que viria a formar o Brasil. Eram povos diversos, como tupinambás, guaranis, jês, carijós e numerosas comunidades amazônicas.
A colonização provocou conflitos, deslocamentos, escravização e a disseminação de doenças. Apesar da forte redução populacional e territorial, os povos indígenas sobreviveram e permanecem parte fundamental da formação social, cultural e histórica brasileira.
1500 — A chegada dos portugueses
Em 22 de abril de 1500, a frota de Pedro Álvares Cabral avistou terras no atual sul da Bahia. Portugal tomou posse do território, inicialmente denominado Terra de Vera Cruz.
Nos primeiros anos, a exploração concentrou-se no pau-brasil, madeira retirada principalmente com o trabalho indígena. A ocupação portuguesa ainda era limitada e voltada à defesa do território contra o interesse de outras potências europeias.
O termo “descobrimento” continua presente nos livros e nas comemorações oficiais, mas é questionado por historiadores porque o território já era habitado.
1530 a 1549 — O início da colonização efetiva
A Coroa portuguesa decidiu ocupar de forma permanente a nova colônia. Criou as capitanias hereditárias e distribuiu grandes extensões de terra a donatários.
Como a maior parte das capitanias enfrentou dificuldades, Portugal estabeleceu, em 1549, o Governo-Geral. Salvador tornou-se a primeira capital do Brasil e o centro administrativo da colônia.
A concentração fundiária iniciada naquele período deixou marcas duradouras na estrutura agrária brasileira.
Séculos 16 e 17 — Açúcar, escravidão e sociedade colonial
A produção de açúcar tornou-se a principal atividade econômica, especialmente no Nordeste. Os engenhos deram origem a uma sociedade rural dominada por grandes proprietários.
Milhões de africanos foram trazidos à força para o Brasil ao longo do período colonial e imperial. O trabalho escravizado sustentou a produção agrícola, a mineração, os serviços urbanos e grande parte da economia. O IBGE destaca que trabalhadores africanos foram empregados desde o século 16 na indústria açucareira, então um dos setores mais importantes do comércio internacional.
A presença africana foi decisiva para a formação da população, da língua, da culinária, da música, das religiões e da cultura brasileira.
Século 17 — Invasões estrangeiras e expansão territorial
Franceses e holandeses tentaram estabelecer colônias em partes do território português. Os holandeses ocuparam áreas do Nordeste entre 1630 e 1654, controlando importantes centros produtores de açúcar.
No interior, expedições conhecidas como bandeiras procuraram metais preciosos, capturaram indígenas e ampliaram a área efetivamente ocupada pelos portugueses. Essa expansão ultrapassou os limites originalmente estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas e contribuiu para a configuração territorial do Brasil.
Final do século 17 e século 18 — O ciclo do ouro
A descoberta de ouro em Minas Gerais deslocou o centro econômico da colônia do Nordeste para o Sudeste. Cidades como Ouro Preto, Mariana e São João del-Rei cresceram rapidamente.
A mineração estimulou o comércio interno, a urbanização e a circulação de pessoas, mas continuou baseada no trabalho escravizado e numa pesada cobrança de impostos por Portugal.
Em 1763, a capital foi transferida de Salvador para o Rio de Janeiro.
1789 — A Inconfidência Mineira
Inspirado pelas ideias iluministas e pela independência dos Estados Unidos, um grupo de integrantes da elite mineira planejou romper com Portugal. O movimento foi denunciado antes de começar.
Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi executado em 1792 e transformado, posteriormente, em símbolo da luta pela independência.
Outros movimentos, como a Conjuração Baiana de 1798, tiveram maior participação popular e defenderam propostas mais amplas, entre elas a igualdade social e o fim da escravidão.
1808 — A transferência da Corte portuguesa
A invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão levou a família real portuguesa a se transferir para o Rio de Janeiro.
A abertura dos portos às nações amigas encerrou o monopólio comercial português. Foram criados o Banco do Brasil, instituições de ensino, órgãos administrativos, bibliotecas e a imprensa oficial.
Em 1815, o Brasil deixou formalmente a condição de colônia e passou a integrar o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.
1822 — A Independência
Em 7 de setembro de 1822, dom Pedro rompeu politicamente com Portugal. Em dezembro, foi coroado imperador como Pedro I.
A independência preservou a monarquia, as grandes propriedades e a escravidão. Diferentemente do que ocorreu em partes da América espanhola, o território brasileiro permaneceu unido, embora várias províncias tenham registrado conflitos e resistência ao novo governo.
1824 — A primeira Constituição
A Constituição de 1824 instituiu uma monarquia constitucional hereditária. O imperador recebeu o chamado Poder Moderador, que lhe permitia interferir nos demais poderes.
O voto era limitado por critérios econômicos, e a maior parte da população permanecia excluída da vida política.
1831 a 1840 — O período das Regências
Pedro I abdicou do trono em 1831, deixando como sucessor seu filho, então criança. O país passou a ser governado por regentes.
Foi um dos períodos mais instáveis da história brasileira. Revoltas como Cabanagem, Balaiada, Sabinada e Farroupilha revelaram disputas regionais, insatisfação popular e divergências sobre a centralização do poder.
Em 1840, Pedro II foi declarado maior de idade e assumiu o trono aos 14 anos.
1840 a 1889 — O Segundo Reinado
O governo de Pedro II foi marcado por maior estabilidade política, expansão da produção de café, construção de ferrovias, chegada de imigrantes e crescimento das cidades.
O Brasil participou da Guerra do Paraguai, entre 1864 e 1870, ao lado da Argentina e do Uruguai. O conflito fortaleceu o Exército, mas provocou grandes perdas humanas e econômicas na região.
Na segunda metade do século 19, o movimento abolicionista ganhou força e aumentou a pressão contra a escravidão.
1888 — A abolição da escravidão
Em 13 de maio de 1888, a princesa Isabel sancionou a Lei Áurea, extinguindo legalmente a escravidão.
A medida foi resultado de décadas de resistência dos próprios escravizados, da formação de quilombos, de fugas, mobilizações populares e da atuação do movimento abolicionista.
O Estado, porém, não criou políticas de integração social, distribuição de terras, educação ou reparação. Os libertos foram abandonados à própria sorte, e as consequências desse processo ajudam a explicar parte das desigualdades raciais que permanecem no país.
1889 — A Proclamação da República
Em 15 de novembro de 1889, um movimento militar derrubou a monarquia. O marechal Deodoro da Fonseca assumiu o governo.
A mudança de regime ocorreu sem participação popular expressiva. A Constituição de 1891 estabeleceu o presidencialismo, o federalismo e a separação entre Estado e Igreja.
1889 a 1930 — A Primeira República
O período ficou marcado pelo predomínio das oligarquias estaduais, especialmente de São Paulo e Minas Gerais. Coronéis e chefes políticos exerciam forte controle sobre as eleições.
A economia dependia principalmente da exportação do café. Ao mesmo tempo, a urbanização e a imigração cresceram, surgiram indústrias e começaram a se organizar movimentos operários.
Revoltas como Canudos, Contestado, Revolta da Vacina e Revolta da Chibata expuseram tensões sociais, conflitos pela terra e a exclusão de grandes parcelas da população.
1930 — A chegada de Getúlio Vargas ao poder
A Revolução de 1930 encerrou a Primeira República e levou Getúlio Vargas à chefia do governo.
O período varguista ampliou a presença do Estado na economia, incentivou a industrialização e criou uma legislação trabalhista. Também fortaleceu a centralização política.
Em 1932, foram instituídas a Justiça Eleitoral e novas regras de votação, incluindo o voto feminino. O Tribunal Superior Eleitoral mantém a cronologia dos pleitos realizados desde aquele ano.
1937 a 1945 — A ditadura do Estado Novo
Em 1937, Vargas deu um golpe e implantou o Estado Novo. O Congresso foi fechado, partidos políticos foram proibidos e a imprensa passou a sofrer censura.
Apesar do autoritarismo, o governo impulsionou a indústria de base, criou empresas estatais e consolidou leis trabalhistas.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Brasil enviou tropas para combater o nazifascismo na Europa. A contradição entre lutar pela democracia no exterior e manter uma ditadura no país aumentou a pressão pela saída de Vargas, deposto em 1945.
1946 a 1964 — Democracia, industrialização e crise política
A Constituição de 1946 restabeleceu direitos políticos e eleições. O período foi marcado pela rápida urbanização, pela expansão industrial e pelo crescimento dos meios de comunicação.
Vargas voltou à Presidência pelo voto em 1951 e governou até a crise política que culminou em sua morte, em 1954. Juscelino Kubitschek, eleito no ano seguinte, acelerou a industrialização, estimulou a indústria automobilística e construiu Brasília, inaugurada em 1960.
A renúncia de Jânio Quadros, em 1961, abriu uma crise institucional. João Goulart assumiu após a adoção temporária do parlamentarismo. A polarização em torno das reformas de base, somada ao ambiente internacional da Guerra Fria, preparou o terreno para a ruptura de 1964.
1964 — O golpe e o início da ditadura
Em 1964, um golpe apoiado por setores civis e militares derrubou o presidente João Goulart. O regime autoritário durou 21 anos, até 1985.
O Congresso sofreu intervenções, mandatos foram cassados, eleições presidenciais tornaram-se indiretas e opositores foram perseguidos. O Ato Institucional nº 5, de 1968, aprofundou a repressão e a censura.
O período também registrou forte crescimento econômico em determinados anos, expansão da infraestrutura e aumento da urbanização. Esses avanços, entretanto, vieram acompanhados de endividamento, concentração de renda e restrições às liberdades.
A Comissão Nacional da Verdade investigou as graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, com destaque para a ditadura.
1984 e 1985 — Diretas Já e redemocratização
A campanha das Diretas Já levou milhões de pessoas às ruas em defesa da eleição direta para presidente. A emenda constitucional não foi aprovada, mas o movimento acelerou o fim do regime.
Tancredo Neves foi eleito indiretamente em 1985, mas adoeceu antes da posse e morreu semanas depois. O vice José Sarney assumiu a Presidência, encerrando o ciclo dos governos militares.
1988 — A Constituição Cidadã
Promulgada em 5 de outubro de 1988, a nova Constituição ampliou direitos civis e sociais, restabeleceu garantias democráticas e definiu responsabilidades do Estado em áreas como saúde, educação e previdência.
A Carta instituiu as bases do atual Estado Democrático de Direito e assegurou eleições diretas, liberdade de expressão, voto dos analfabetos e mecanismos de participação popular.
1989 — A volta da eleição direta para presidente
Em 1989, os brasileiros voltaram a escolher diretamente o presidente da República, depois de quase três décadas. Fernando Collor venceu a eleição, mas sofreu impeachment em 1992 após denúncias de corrupção.
O vice Itamar Franco assumiu o governo. Em 1994, o Plano Real controlou a hiperinflação, estabilizou a moeda e reorganizou a economia.
1995 a 2016 — Reformas, políticas sociais e novas crises
Os governos de Fernando Henrique Cardoso consolidaram o Plano Real, realizaram privatizações e adotaram reformas econômicas.
A partir de 2003, os governos de Luiz Inácio Lula da Silva ampliaram programas sociais, elevaram o salário mínimo, favoreceram o acesso ao crédito e beneficiaram-se de um período de valorização internacional das matérias-primas.
Dilma Rousseff tornou-se, em 2011, a primeira mulher a presidir o Brasil. Seu governo enfrentou desaceleração econômica, protestos de rua, crise política e investigações de corrupção. Em 2016, Dilma sofreu impeachment e foi sucedida pelo vice Michel Temer.
2019 a 2022 — Polarização e pandemia
O governo de Jair Bolsonaro foi marcado por forte polarização política, conflitos entre instituições e pela pandemia de Covid-19, que provocou uma emergência sanitária e graves consequências sociais e econômicas.
A crise expôs desigualdades históricas, pressionou o sistema de saúde e mudou hábitos de trabalho, educação e convivência.
2023 — Ataques às sedes dos Três Poderes
Lula retornou à Presidência em janeiro de 2023 para cumprir um terceiro mandato. Uma semana depois, manifestantes contrários ao resultado eleitoral invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal.
Os ataques de 8 de janeiro foram considerados uma tentativa de atingir a ordem democrática e produziram investigações, processos e condenações.
O Brasil contemporâneo
No século 21, o Brasil é uma democracia constitucional, uma das maiores economias e um dos países mais populosos do mundo. Possui agricultura competitiva, indústria diversificada, grandes recursos naturais e influência regional e internacional.
Ainda enfrenta, porém, desafios formados ao longo de sua história: desigualdade social e racial, concentração da terra e da renda, violência, baixa qualidade dos serviços públicos, degradação ambiental, instabilidade política e dificuldades para assegurar oportunidades iguais.
A trajetória brasileira revela avanços expressivos, mas também continuidades. A escravidão, o autoritarismo e a exclusão social não pertencem apenas ao passado: seus efeitos permanecem na distribuição da riqueza, no acesso à educação, na ocupação das cidades e na representação política.
Compreender a história do Brasil, portanto, significa observar não apenas as datas e os governantes, mas também os conflitos, os grupos sociais e as escolhas que deram forma ao país.
Veja neste vídeo a história da vila de Alvorada do Iguaçu, que foi submersa com a formação do Lago de Itaipu nos anos 1980, no Paraná. A produção foi da TV Band Paraná com apoio deste portal.
O “AI-5” – Ato Institucional nº 5 – foi anunciado em 1968, quando o general Costa e Silva era presidente da República. Por dez anos o Brasil, que já vivia em uma ditadura desde 1964, entrou em regime de exceção ainda mais fechado. Foi uma reação do governo aos protestos que tomavam conta das ruas, pedindo liberdade.
De 1968 a 1978 houve um período de suspensão das garantias constitucionais, com prisões, torturas e mortes. E ainda os governadores, prefeitos e até senadores passaram a ser escolhidos pelo próprio governo.
Leia abaixo o depoimento do então ministro, Ivo Arzua, que também assinou o “AI-5”. Ele era ministro da agricultura, nesta época.
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Ivo Arzua era ministro da agricultura em 1967.
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José Wille – Em 1966, o senhor foi convidado a assumir o Ministério da Agricultura pelo presidente?
Ivo Arzua – Eu acho que foi o presidente, porque a notícia das obras de planejamento de Curitiba e das obras que estávamos iniciando já tinha corrido o Brasil. Já tinha certo prestígio em relação a este planejamento. Quando Costa e Silva veio a Curitiba a convite de amigos e classes políticas e empresariais, trouxe o Andreazza, que depois foi ministro dos Transportes. Ele percorreu a cidade e ouviu muitas referências boas a meu respeito. Fui convidado, então, para ter uma conversa com o presidente. E aí ele me convidou para o Ministério da Agricultura. Eu lhe disse “Eu não sou fazendeiro, não tenho terras, não sou agrônomo”. E ele respondeu “Não, mas você é um bom planejador e um bom executor”. Ainda assim, achei que havia gente melhor para a área. Na terceira vez em que ele repetiu o convite, não pude recusar, porque ele disse que, se eu não aceitasse, o Paraná não teria ministro. Então, fui para o Ministério da Agricultura em 15 de março de 1967. Mas, cônscio das minhas falhas na área de agricultura, fiquei mais ou menos uns 15 dias aqui na Escola de Agronomia e Veterinária, fazendo uma espécie de cursilho de agricultura. O diretor era meu amigo e conseguiu com os professores a gentileza de que eu ficasse praticamente 24 horas por dia debatendo com eles e ouvindo aulas sobre agricultura, Depois disso, percorri as regiões principais do Paraná, de São Paulo, do Rio Grande do Sul e outras do Brasil, tendo contato direto com os agricultores. Eles reuniam o pessoal em sindicatos de lavradores e cooperativas, e eu ia debater com eles. Quando assumi o cargo de ministro, já levava um esboço de planejamento para a agricultura.
José Wille – Um ponto polêmico que marca a sua carreira como ministro: nas reuniões do Conselho de Segurança Nacional, o senhor participou do momento em que se decidiu pelo AI-5, que acabou com as liberdades democráticas e permitiu uma repressão ainda maior.
Ivo Arzua – Eu disse, outro dia, num programa de televisão, que as pessoas têm de ser julgadas dentro de sua época. Por exemplo, condena-se muito Roosevelt e Churchill por terem feito aquela aliança com Stalin, o sanguinário ditador russo. Mas eles não tiveram saída. Ou era Hitler ou era Stalin. Para vencer um, eles tinham que se aliar a outro. E preferiram o Stalin. Então, naquela época, não tinha outra solução. Foi o caso do AI-5. Havia o que eles chamavam de guerrilha urbana, havia relatórios secretos dos órgãos de segurança. Outro dia, houve uma entrevista sobre Lamarca, com documentos mostrando que realmente a intenção dos comunistas era tomar o poder pela força. Então, o governo tinha que ter muita força para evitar o domínio comunista. E aí saiu o AI-5, na reunião do ministério. Eu publiquei, em 1978, no jornal “Correio de Notícias”, o artigo “AI-5 –Questão de Consciência”, mostrando qual foi a minha participação. O meu voto foi por escrito e eu dizia que só admitia o AI-5 se fosse de curto prazo, como transição para vencer a guerrilha urbana que estava se manifestando e para preparar uma Constituinte para a nova República, com bases claras e essencialmente democráticas.
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José Wille – Essas circunstâncias de estar ali e ter assinado – como o senhor sentiu isso a seguir?
Ivo Arzua – Acho que o AI-5 foi mal-interpretado, porque acho que o único grande pecado dos governos militares foi esse: de ter assumido, por exemplo, essa parte de condenação política, de julgamento político. Isso deveria ser entregue ao Judiciário. Era a minha opinião particular, como civil participante do governo, que ofensas às leis e a preceitos constitucionais fossem entregues ao Judiciário. Mas prevaleceu o outro ponto de vista e eu fui contrariado na minha posição.
José Wille – O senhor viveu dentro do governo militar de Costa e Silva, participando das reuniões até do Conselho de Segurança Nacional. Havia até um pouco de paranoia?
Ivo Arzua – Havia, eu acho. Eu admiro muito a classe militar do Brasil, pois, no geral, são pessoas honestas, patriotas, capazes, amam o Brasil até mais que nós civis. Mas, num certo momento desses governos militares, interesses políticos tiveram predominância, usando os militares como fachada. E isto influiu muito, pois os militares são ingênuos para a política, não têm jogo de cintura e, então, se tornaram presas políticas neste jogo..
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José Wille – Quando terminou o período de Costa e Silva, o senhor acabou saindo junto. Havia um problema de relacionamento com o novo presidente, Emílio Garrastazu Médici?
Ivo Arzua – O presidente Costa e Silva foi impedido por motivos de saúde e eu tenho o hábito, na minha vida, de sempre sair com o meu chefe, por consideração. E quanto ao Médici, em que pese ser também um grande militar, um grande homem público do Brasil, eu tive um desentendimento com ele, exatamente em relação à conduta do SNI. Este foi em um debate que tive com ele, juntamente com o presidente Costa e Silva, que achou que eu tinha razão, ficando do meu lado.
José Wille – Isso foi ainda durante o governo do presidente Costa e Silva.
Ivo Arzua – O motivo principal foi a minha lealdade e admiração ao presidente Costa e Silva. Fui o único ministro que apresentou um pedido de demissão por escrito. Como a Junta Militar não quis aceitá-lo, entreguei ao chefe da Casa Civil o meu pedido de renúncia de ministro da Agricultura..
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José Wille – Essa situação lhe custou alguma coisa na sequência, por parte do governo militar?
Ivo Arzua – Não, eu fiquei totalmente marginalizado, porque é uma atitude que não era usual. No geral, o usual é a subserviência, a adesão, a continuidade. E nunca houve isso comigo – para você ter ideia: para o presidente Costa e Silva, pedi demissão cinco vezes, sendo que três delas por escrito. Quando eu não concordava com uma decisão que o governo ia tomar, apresentava a demissão, para não prejudicar o governo – “O senhor me demita e, quando aparecer nos jornais a minha demissão, venho agradecer a Vossa Excelência. Saio mais seu amigo do que quando entrei”.
José Wille – Surgiram suspeitas, na época, do que teria acontecido quando Costa e Silva ficou doente. Ele era tido como mais moderado, não um militar linha-dura. Como o senhor interpreta este caso?
Ivo Arzua – Aconteceu uma coisa muito interessante – histórias que a História não conta. Eu estava me restabelecendo de uma pleuresia, porque, no ministério, me sacrifiquei muito. Saía do ministério à meia-noite ou à uma hora e, às cinco e meia, já estava lá de novo – como também aqui, nas obras do Centro Cívico e na prefeitura. Eu sempre fui assim, sempre me dediquei de corpo e alma. Mas sabia que isso iria estourar em algum lugar do meu corpo. E estourou no pulmão, com a pleuresia. Fiquei doente e, quando houve um congresso agropecuário, que coincidiu com as comemorações do Dia do Soldado, fui a Brasília, contra ordens médicas, e abri o evento. E voltou a febre. O médico do presidente da República me deu ordens para que me recolhesse ao leito e eu não fui à solenidade do Dia do Soldado – uma recepção no Ministério do Exército, em que os militares e o presidente da República receberiam a sociedade civil, ministros de Estado, diplomatas… Enfim, uma grande festa, a qual não pude ir. No dia seguinte, um amigo meu que esteve lá me contou que o Costa e Silva tinha preparado aquela proposta que eu tinha feito de uma nova Constituição e de uma nova República. Só que eles não concordaram com a Constituinte. E o Pedro Aleixo, que é um grande jurista, um grande homem, vice-presidente da República, coordenou esta nova Constituição, de espírito inteiramente democrático, derrogando o AI-5. Acabava com o AI-5 e reabria o Congresso Nacional, na plenitude dos seus poderes. O presidente aprovou e estava disposto a reabrir o Congresso e promulgar a nova Constituição, no dia 7 de setembro de 1969.
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José Wille – Essa era a intenção de Costa e Silva?
Ivo Arzua – Essa era a intenção dele. E, nesta reunião, me contaram que as áreas militares apresentaram uns documentos a ele, dizendo que não concordavam e que não era hora ainda do Brasil retornar à democracia. Isto lhe deu um grande trauma psíquico. No dia seguinte, começou o derrame que o levou à morte. Porque não deixaram que ele realizasse o seu sonho e a promessa feita a nós do ministério. O voto dele foi mais ou menos dentro das linhas gerais que eu tinha dado: o AI-5 transitório, apenas para vencer a guerra revolucionária e reabrir o Congresso com a plenitude de seus poderes, em uma nova República, com características democráticas. Não o deixaram fazer isso. Então, ele pagou com a sua saúde e com a vida.
José Wille – Depois desse período que passou em Brasília, participando do governo Costa e Silva, ao retornar a Curitiba, houve momentos em que o senhor teve que se posicionar politicamente. Em um deles, foi solidário ao comandante de Ponta Grossa, que fez um discurso pelas liberdades democráticas e acabou sendo punido…
Ivo Arzua – Exatamente.
José Wille – O senhor participou também da Frente de Redemocratização, com Ulysses Guimarães?
Ivo Arzua – Exatamente. Sobre os meus princípios democráticos, acho que não pode haver dúvidas. Durante o regime militar, fizemos o Plano de Urbanismo de Curitiba de forma inteiramente democrática, discutindo com toda a população. Em 1974, quando notei que a Aliança Renovadora Nacional estava contrariando aqueles princípios iniciais de redemocratização do Brasil e a tendência era o prolongamento do período de exceção, eu me retirei da Arena, cujo presidente era Accioly Filho. Quando o coronel Tarcísio, comandante do 20º BIB em Ponta Grossa, foi preso por ter feito um pronunciamento pela redemocratização, fui em defesa dele. Ele foi julgado pela Justiça Militar e eu me apresentei voluntariamente para defendê-lo. O advogado dele era o grande René Dotti.
E, depois, fui convidado pelo Ulysses Guimarães e pelo Tancredo Neves, dos quais guardo grandes lembranças, a participar da Frente Nacional de Redemocratização. Participei dela e fizemos um grande comício em Curitiba, a portas fechadas, no grande auditório do Colégio Estadual do Paraná, pois foi negada pelo governador do estado da época a licença para um comício público. Lá estava eu, o Teotônio Vilela, o Ulysses Guimarães, o Tancredo Neves e outros próceres democráticos, mas muito reduzidos. Então, dentro do governo militar, a minha posição sempre foi essa: pela democracia, pela redemocratização, enfrentando os poderosos dessa maneira..
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